#Entrevista: Transbordando conteúdo, Fernanda Nobre fala sobre feminismo, carreira, sexualidade, relacionamentos e padrões de beleza

Fernanda Nobre (Foto: reprodução/Fernando Machado)
Fernanda Nobre (Foto: reprodução/Fernando Machado)

Dorra é intensa, uma refugiada bósnia vítima de estupro. Ela é a principal personagem da peça O Corpo da Mulher como Campo de Batalha, escrita por Matei Visniec e com direção de Fernando Philbert, que, em sua terceira temporada, está em cartaz até dia 27 de novembro no Teatro I – Sesc Tijuca, no Rio de Janeiro.

Fernanda Nobre é a atriz responsável por dar vida a essa mulher e por abordar a violência feminina em cima do palco. E os planos profissionais da carioca não param por aí: no primeiro semestre de 2017, estreia, ao lado de Alinne Moraes, Alexandre Nero e Caco Ciocler, o filme A Paixão Segundo João. Entre um ensaio e outro, Fernanda bateu um papo com a Vogue. Transbordando conteúdo, ela falou sobre feminismo, machismo, carreira, sexualidade, relacionamentos e padrões de beleza: “Tenho medo de envelhecer nesta nossa cultura em que as mulheres não se permitem ter um sinal da idade, e que aos 40 anos querem ter o mesmo corpo e rosto que tinham aos 28”. Veja abaixo:

“O Corpo da Mulher como Campo de Batalha”

A peça “O Corpo da Mulher como Campo de Batalha” aborda a violência contra a mulher. Você já passou por alguma situação nesse sentido que te marcou?
Tive a sorte de não viver nenhuma violência física – usei a palavra sorte porque considero uma loteria, se tratando de uma realidade em que a cada 4 minutos uma mulher é agredida fisicamente no nosso País. Mas já sofri violência psicológica, cerceamento de liberdade… Como todas as mulheres, em maior ou menor grau, pois são situações mais que cotidianas às mulheres que vivem numa sociedade calçada sobre valores e pensamentos machistas.

Atualmente, as mulheres têm tido cada vez mais voz. Você percebe uma evolução nesse sentido ou acha que ainda existe um longo caminho a ser percorrido?
Esta é uma luta antiga e que já teve grandes vitórias, mas ainda há muito para ser percorrido. Eu acredito que chegou o momento em que esse percurso seja junto com os homens, incluindo eles nos nossos debates. Eu já tive o impulso de acreditar que a saída era mandar os homens calarem a boca, em vingança pelos anos de opressão ou pela violência sofrida. Mas, hoje, me parece mais produtivo educá-los. E, para educar, é preciso deixá-los participarem. E isto não é feito os colocando no colo e perdoando, como se fossem vitimas de um sistema normatizado e milenar. Precisamos dar as mãos e buscar uma mudança radical, completamente diferente de como vivemos até hoje. É a quebra do gênero, é a união, só assim criamos uma nova forma da sociedade se relacionar. Já foi dito que o papel do feminismo é, às vezes, lembrar que gênero importa e, às vezes, lembrar que não. A grande sabedoria está em entender quando é a hora de cada uma dessas duas coisas.

Fernanda Nobre (Foto: reprodução/Fernando Machado)
Fernanda Nobre (Foto: reprodução/Fernando Machado)

E, afinal, qual a sua opinião sobre o machismo e sobre o feminismo?
Feminismo não é o contrário de machismo. Feminismo não é a ideia de que mulheres são melhores que os homens. O feminismo é uma a luta por direitos, um movimento libertador que me trouxe, no nível pessoal e social, muitas conquistas. Confesso que eu não me dava conta do quanto estava impregnada e conformada com a cultura machista. Quando saiu a campanha #meuprimeiroassédio, senti como se estivesse recebendo um soco no estômago, pois me dei conta do quanto eu estava inserida neste modus operandi opressor, sem questionar o absurdo deste lugar subjugado e inseguro que eu me encontrava. Agradeço profundamente a este movimento e a tantas mulheres que me ensinam que “ser mulher e não ser feminista é um contrassenso desmedido”.

Sua personagem foi vítima de estupro. Você já vivenciou algum tipo de assédio abusivo nesse nível? Se sim, pode nos contar como foi e como você reagiu?
A importância deste debate é perceber que não existe uma única mulher que nunca tenha vivido um assédio. Se dar conta disso é de uma tristeza cortante. Assim como todas as mulheres, eu sofro assédios diários. Felizmente, não tive assédios sexuais na minha historia, mas inúmeros assédios verbais e psicológicos, que me fizeram viver no medo e na insegurança de ir e vir, de ser.

“Carreira”

Você começou a carreira de atriz aos oito anos de idade. Como surgiu a oportunidade de começar tão cedo na TV?
Gosto de dizer que a profissão me escolheu. Foi um feliz acaso do destino. Aos oito anos fui convidada para fazer um teste para a novela Despedida de Solteiro, da Rede Globo. Quando fui aprovada, foi uma surpresa, pois naquela época não passava pela minha cabeça nada além de brincar de Barbie. Me apaixonei imediatamente por aquele mundo. Para mim, ir todos os dias para o estúdio era como ir para um grande parque de diversões.

Como foi lidar com a fama tão nova?
Não tinha consciência de que eu era famosa. Não sei nem se tenho essa consciência hoje. Olhando para trás percebo que tinha muita dificuldade de lidar com essa realidade. Eu rechaçava tudo que tinha relação com a fama, me sentia inadequada com este mercado e também tinha medo de acreditar nele. O que me ajudou a não cair nessa ilusão vazia foi o suporte de uma mãe psicanalista e um pai incentivador, que sempre me situaram e me trouxeram para realidade.

Fernanda Nobre (Foto: reprodução/Fernando Machado)
Fernanda Nobre (Foto: reprodução/Fernando Machado)

E, hoje, o que você considera o melhor e o pior de ser famosa?
Com o passar dos anos e dos vários trabalhos ao longo da minha carreira, eu aprendi a gostar da fama. Hoje eu percebo o quanto a fama abre portas e me ajuda a continuar a desenvolver o meu trabalho, independente se sou convidada para teatro, cinema ou televisão. Fama é o resultado de um trabalho bem feito, de uma carreira sólida. Talvez a parte negativa de ser famosa seja fugir da expectativa que todos impõem a você. Sei que todo mundo passa por isso, mas com o holofote da fama essa cobrança vem de uma forma macro.

Prefere interpretar vilã ou mocinha? O público reage de forma diferente com você nas ruas?
Eu não sei o que eu prefiro. Fazer a vilã é muito divertido, brincar com a imoralidade é delicioso, é uma oportunidade de colocarmos todos os nossos monstros para fora. E fazer a mocinha é se conectar com o que há de mais doce em nós. Eu amo o meu trabalho, fico tão apaixonada pelas personagens que, quando estou envolvida com elas, sempre acho que é o meu papel preferido.

Qual o maior elogio que você já recebeu? E a crítica que mais te marcou?
O maior elogio que já recebi foi de uma das atrizes que eu considero a melhor do País. Ela me disse que eu sou uma Atriz com A maiúsculo, feita não só de talento, mas também de vocação. E eu acho que é isso que falta hoje no mercado: atores com vocação. Críticas negativas sempre vêm aos montes e indiscriminadamente, se formos dar importância a todas, não levantamos mais da cama. Como eu disse acima, acho que minha grande virtude é ter vocação e isso vai me fazer sempre continuar.

Fernanda Nobre (Foto: reprodução/EGO)
Fernanda Nobre (Foto: reprodução/EGO)

Aos 16 anos, fez sua primeira protagonista, em Malhação, conhecida como banco de talentos da Rede Globo. A versão da época é considerada pelo público mais velho como a original. Alguns dizem que foi a melhor fase da série. O que acha que participar desse momento mudou a sua vida?
A Malhação foi um divisor de águas na minha carreira. Na época, eu não tinha dimensão do poder da personagem, eu amava fazer o programa, éramos todos grandes amigos, um clássico grupo de adolescentes descobrindo a vida e quem viríamos a nos tornar. Hoje, me emociono em ver que, depois de 16 anos que estreei no programa, as pessoas ainda falam sobre a Bia, meu personagem por três anos. Foi uma vilã de grande sucesso, o público amava odiá-la!

 

“Relacionamento e sexualidade”

Você já foi casada, depois declarou publicamente a decisão de passar alguns anos solteira, sem assumir relacionamentos. O que aprendeu com essas experiências?
Casei muito novinha, vivi uma relação feliz por quase uma década, mas a separação foi fundamental para eu me transformar em quem sou hoje. Quando se casa muito cedo, a construção da sua personalidade fica muito misturada com a do outro. Quando me vi solteira, me deparei com uma Fernanda que eu não conhecia, descobri coisas sobre mim que só é possível sem a interferência do outro, desde: uma mulher aventureira que gosta de novos desafios e de conhecer gente diferente, até coisas muito triviais, mas deliciosas, como chegar em casa e desmaiar no sofá.

Você deu uma entrevista falando que descobriu a sua sexualidade aos 30 anos. O que exatamente isso significa?
O que eu quis dizer foi que, com a maturidade, a nossa relação com o próprio corpo e com o nosso desejo muda completamente. Isto não é algo que aconteceu especificamente comigo, é de um modo geral, é o resultado da sociedade machista e repressora em que vivemos, onde somos educadas a não ter um empoderamento verdadeiro com o nosso desejo. É claro que, quando se é uma menina, a relação com o sexo é deliciosa, cheia de prazer, mas com a maturidade a sua relação com o sexo e o desejo está tão alinhada que é, sim, uma nova descoberta.

Como está o coração hoje? Planeja casar novamente e ter filhos?
Estou completamente apaixonada pela relação que tenho hoje. Não sabia que era possível ter uma relação de tanta parceria e liberdade. O José Roberto Jardim, com quem namoro há dois anos, é o meu melhor amigo, namorado, marido, na verdade, não sei nem que nomenclatura usar. E é isso o que mais amo na nossa relação, somos tudo, muitos e ao mesmo tempo um. Eu já estou casada, talvez não da maneira convencional que conhecemos e esperam, mas na maneira mais forte que essa proposta pode representar. Tenho vontade de ter filhos e eles virão quando for o momento.

Fernanda Nobre (Foto: reprodução/EGO)
Fernanda Nobre (Foto: reprodução/EGO)

“Moda”

Qual a sua relação com a moda? É ligada à tendências?
Minha relação com a moda mudou depois que morei sozinha em Londres e conheci um grande consultor de estilo, o Leo Belicha, que já morava lá há 18 anos. Ele trabalha e trabalhou para grandes nomes da música, como Rollings Stones Rihanna e Elza Soares. Foi o Leo que me ajudou a abandonar a menina que seguia as tendências para ser aceita e me mostrou o quanto é importante expressar quem você é através do seu visual.

Já seguiu alguma tendência ou usou algo que, depois, olhando as fotos, se arrependeu?
Quem nunca?! Eu me vestia sem pensar se era um reflexo da minha personalidade. E, hoje, quando olho essas fotos antigas, vejo apenas uma menina querendo ser aceita e não há nada mais sem charme do que isso.

“Beleza”

Qual o seu segredo para manter o corpo sempre em dia? Entre esportes, exercícios e dieta, o que costuma fazer e com que intensidade?
Neste momento, estou fazendo muito exercício. Me adaptei muito bem ao método Igarashi, do Jun Igarashi, que envolve levantamento de peso olímpico, Kettlebell e correção dos padrões básicos de movimento. Treino três vezes por semana. E também estou flertando com o Muai Thay, que faço duas vezes por semana.
Minha alimentação é controlada, mas sem muita paranoia. Há anos, tenho e mantenho 49kg. Quando viajo ou relaxo demais, engordo só dois quilinhos. Quando começo algum trabalho tento chegar aos 48kg, porque a câmera sempre vai nos engordar um pouco.

Você se renderia (ou já se rendeu) à procedimentos estéticos?
Não acho problema nenhum fazer procedimentos para se sentir feliz consigo mesma. Eu fiz uma redução nos seios com 19 anos, pois os achava grandes demais para mim. O que eu acho preocupante é tentar driblar a idade, disfarçar qualquer marca que venha. De resto, acho que tudo vale, só acho feio lente de contato nos dentes (risos).

Fernanda Nobre (Foto: reprodução/EGO)
Fernanda Nobre (Foto: reprodução/EGO)

Qual item de beleza não pode faltar em seu nécessaire?
Um batom vermelho! Ele dá uma levantada instantânea quando estou acabada. E um mini Listerine, porque sempre é bom estar prevenida, nunca se sabe.

Tem algum truque de beleza?
Tomar uma colher de óleo de linhaça por dia e, em jejum, um limão espremido com um pouquinho de água morna.

Você é uma verdadeira camaleoa capilar, tanto em corte quanto em cor. Com que cor e corte se sente mais bonita ou se gosta menos, e por quê?
Mudar de corte e cor não acontece só por necessidade da minha profissão, eu pinto e corto o cabelo também para mim mesma. O meu cabelo e a forma de eu me vestir são a expressão do que estou vivenciando naquele determinado período da minha vida. Eu não conseguiria ficar com um só tipo de cabelo durante a vida, pois sou muitas em uma, adoro mudar de ares, de grupos e de ideias. O visual que mais amei foi o platinado curtinho. Me sentia a Jean Seberg, em qualquer ocasião estava elegante! O que menos gosto é da a transição do curto para o longo. Esse período requer paciência, pois é um limbo, difícil de deixar uma marca de personalidade.

Qual o melhor conselho de beleza que já recebeu?
Saber todas as instruções, mesmo que depois não vá segui-las.

O avançar da idade é algo que te assusta?
Essa ainda não é uma preocupação na minha vida, ainda não cheguei no momento de me incomodar com as mudanças na minha pele. Mas tenho medo de envelhecer nessa nossa cultura em que as mulheres não se permitem ter um sinal da idade, que com 40 anos querem ter o mesmo corpo e rosto que tinham aos 28.Tudo é uma imposição social, que beira o perverso. Eu estou me trabalhando para não ser prisioneira dessa ditadura da eterna juventude.

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